Ester Farias de Oliveira

Momentos e Movimentos, Lúcidos Pensamentos

Textos


EXPERIÊNCIA DE QUASE MORTE
 (DO LIVRO “O DERRADEIRO AMOR”)

Este capítulo trata de experiências minhas que vou considerar como EQM (Experiência de Quase Morte), devido a uns pontos coincidentes no que tange aos vários depoimentos divulgados na mídia.
Na maioria dos depoimentos, elas disseram que saiam do corpo, olhavam tudo do alto e escutavam claramente todas as conversas, mesmo estando em coma.
Outra característica é que, diferente dos sonhos, a EQM nunca é esquecida e lembrada em todos os detalhes por todos os anos da vida daquele que teve essa experiência, independentemente da idade.
Conclui que, passei por essa experiência pelas razões acima. E, aconteceu da seguinte forma.
Eis que nosso pai, aproveitando suas férias, foi visitar sua mãe em João Pessoa na Paraíba. Com ele foram nossa mãe; meus dois irmãos mais velhos (um casal); e eu.
Meu irmão tinha sete; minha irmã quase cinco; e eu, perto dos quatro.
A caçula, de quase dois anos, foi deixada com nossa avó materna no Rio de Janeiro.
Minha mãe nunca me explicou direito o que aconteceu, mas lembro bem que eu adoeci com uma febre muito alta e fui deixada numa rede aos cuidados de minha avó paterna, enquanto os outros passeavam para conhecer os tios e alguns pontos turísticos.
Não lembro em que momento eu adoeci. Talvez logo que chegamos na casa da minha avó. Ou, então, já cheguei doente.
Pois bem. Lembro claramente de tudo o que vi durante essa experiência e sempre que eu contava para minha mãe, ela ficava atônita, com os olhos arregalados, dizendo:

- Filha! É impossível você lembrar dessas coisas! Você não tinha quatro anos. Como pode lembrar de tudo isso?

Depois que assisti muitos depoimentos, é que me dei conta de que a visão das pessoas conversando; a paisagem da cidade de João Pessoa, na Paraíba; a rede onde eu estava deitada; e a chegada de minha mãe com um balde cheio de jabuticabas para mim; não era a de uma criança tão pequena.
Para eu ter observado tudo isso, teria que estar em uma referência acima. Como se estivesse vendo todos a partir de suas cabeças.
Isso mesmo! todos os detalhes de minha experiência foram observados como se eu estivesse no teto da casa ou perto das nuvens.
Não lembro da viagem, nem do momento em que chegamos lá. Lembro apenas dos detalhes enquanto estava deitada numa rede.
Conseguia visualizar a rede e eu dentro dela; minha avó paterna olhando de vez em quando e medindo minha febre.
Vi minha avó gritando com um tio que pegara a sandália dela.  E, ele, respondia gritando com ela. Então, meu pai surgiu e colocou seu corpo entre os dois. Ele era o mais velho e estava repreendendo o irmão duramente.
Em seguida, vi o meu irmão mais velho, aprendendo a manusear uma espingarda de caça, instrumento antigo muito usado naquela região nordestina.
Fui conhecer as praias de João Pessoa quando já tinha mais de cinquenta anos de idade. Dias antes de embarcar tive um sonho vendo todos os detalhes da paisagem, como se eu estivesse de asa delta e conhecesse aquele lugar há muitos anos.
Certo dia, sonhei que voava junto com o meu filho mais velho, apreciando a paisagem litorânea de João Pessoa. Os detalhes eram impressionantes e eu nunca havia conhecido essa paisagem, nem mesmo por foto.
Nesse sonho, ainda, passei muito perto de fios de alta tensão e, em uma manobra desastrosa, percebi que tinha uma linha sutil que ligava meu filho a mim. Foi então que senti que houve uma quebra que me separou daquela criança enquanto voávamos juntos. Mesmo procurando, desesperada, não o encontrei. Correndo pelas praias, eu perguntava para algumas pessoas, até que uma voz chegou aos meus ouvidos:
- Não se preocupe. Seu filho está bem.
Aos cinquenta anos, fui visitar esse mesmo filho, que já estava crescido e era um jovem de vinte e poucos anos. Ele estava morando em João Pessoa.
E, para minha surpresa, folheando uma revista dentro do avião, vi fotografias de paisagens do litoral de João Pessoa. Era tudo exatamente como eu havia sonhado, alguns anos antes dessa viagem, em todos os detalhes e desenhos.
Lembrei dos sonhos. E da visão que eu tive quando era aquela criança prostada em uma rede de dormir. Era exatamente aquela mesma paisagem que eu via nas páginas daquela revista.
Certamente, uma criança tão pequena, seria incapaz de observar tudo isso com tantos detalhes. Lembro até das feições; o sorriso e os olhos brilhando de felicidade do meu irmão, olhando para o tio que o surpreendera com aquela espingarda. Ele ficou em alvoroço porque o tio ensinava como manusear um instrumento que somente adultos poderiam usar.
Lembro até do formato das telhas na casa de minha avó. Escutava tudo que conversavam. A sensação de não sentir calor e nem frio estão bem claros em minha mente, bem como a leveza do meu corpo.
A lembrança é nítida de minha mãe, rindo e correndo para onde eu estava, deitada na rede, deixando meu pai e minha avó para trás, conversando. E, quando chegou perto, encostou um balde cheio de jabuticabas e disse:
- Filha! acorda e coma essas jabuticabas que você vai ficar boa dessa febre.
Minha mãe agia assim. Minha avó estava conversando com meus pais, preocupada com minha situação febril crônica, prestes a declarar o pior diagnóstico para minha doença. Ela não deu a mínima e correu para fazer as coisas do jeito dela.
Assim, deixou meu pai conversando sobre o assunto com minha avó, foi em minha direção de forma autoritária, determinando que eu levantasse e comesse as jabuticabas.
Penso que essa convicção e autoridade materna; esse jeito instintivo de minha mãe, foi fundamental para meu retorno à vida.
Esse jeito repetiu-se em outras circunstâncias. Mas, a história de minha mãe, essa pessoa que foi tão especial para mim, merece um capítulo inteiro.
Depois que acordei, não lembro de mais nada; nem mesmo da viagem de volta ao Rio de Janeiro.
Eu sempre sentia muito enjoo em viagens curtas ou longas de ônibus. Talvez tenha tomado algo, ou passei a viagem toda doente, inconsciente ou dormindo mesmo.
Afirmo isso porque quando viajamos de ônibus do Rio de Janeiro à Brasília, tomei um remédio para enjoo, mas fiquei acordada a maior parte do percurso.
Isso talvez porque já tinha nove anos. Diferente de outrora com pouco menos de quatro anos de idade.
Não posso afirmar com certeza que passei por uma experiência de quase morte porque eu não fui levada aos cuidados de um profissional em medicina. Não tenho provas científicas aqui. Tão somente uma experiência factual.
A minha avó paterna era quase que uma “curandeira” naquela região nordestina que não tinha assistência de qualquer tipo (particular ou pública).
Ajudava a vizinhança toda com remédios caseiros e, dificilmente, errava nos diagnósticos. Em época que não existia vacina para paralisia infantil ela oferecia a seguinte opção:
- Dê esse remédio. Com ele, essa criança ou vai ficar boa ou morre logo.
 
As pessoas confiavam cegamente em minha avó, segundo meu pai. E nunca se presenciou a morte de uma criança por causa de seus remédios caseiros.
Minha mãe, depois de colocar o balde ao meu lado, voltou para escutar minha avó e quando percebeu que eu estava acordando, deu gargalhadas e disse:
- Não tem febre nenhuma e ela vai comer todas as jabuticabas.
Não sei se por causa de uma disfunção diastólica que descobri depois de adulta, ou por qualquer outra doença ainda não diagnosticada, eu desmaiava com muita frequência. Minha pressão cai muito rápido diante de fortes emoções ou dores muito intensas. E, então, desmaio.
Outro evento de sensação que estava saindo do corpo, talvez em uma dessas quedas de pressão vou registrar, a seguir.
Era uma tarde quente no Rio e eu, aos sete anos, senti um cansaço estranho e fui para a cama, sozinha, sem dizer nada aos meus pais.
Quando fechei os olhos, tive uma sensação horrível de estar sendo puxada para um lugar terrivelmente escuro. Então consegui gritar e chamar o meu pai.
Mas lembro claramente que antes do meu pai chegar para ver o que estava acontecendo, eu vi todos na sala conversando.Até que consegui abrir os olhos e meu pai perguntava o que eu estava sentindo. Não consegui explicar nada.
Então, minha mãe, insistiu que ele me levasse ao hospital mais próximo. Ele me colocou no carro e saiu comigo, mas quando percebeu que eu já estava bem, retornou para casa e disse que eu só queria passear um pouco mesmo.
Essas são as lembranças de experiências marcantes que nunca saem de minha memória e, às vezes, vem e voltam como as ondas das praias da cidade de João Pessoa/Paraíba.
Ester Farias de Oliveira
Enviado por Ester Farias de Oliveira em 15/02/2021
Alterado em 12/04/2021


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