Ester Farias de Oliveira

Momentos e Movimentos, Lúcidos Pensamentos

Textos



Meritocracia à Dilma

Meu coração anda muito agitado com as tantas desastrosas revelações de falsa governança nacional .
Sou muito ansiosa sim, mas, nem de longe pretenciosa.
O importante é registrar esse desabafo, sabendo que alguém há que se importar um dia.
Preciso, antes de tudo, fazer minhas apresentações.
Sou filha de nordestinos. Para ser mais específica, a de número três de uma galera de dez.
Passei momentos difíceis junto com os meus irmãos, mas cresci e amadureci acreditando que, ao chegar naquela tão sonhada classe média, haveria de criar meus filhos e ajudá-los a, pelo menos, viver com dignidade, trabalhando e evoluindo.
Conquistei um dos sonhos: chegar a classe média.
Esse sonho dependia mesmo de meu grande e único esforço.
Por outro lado, embora educando os filhos e netos de acordo com os mesmos princípios que aprendi com os meus pais, surgem conceitos novos que certa autoridade trouxe em glamouroso discurso: "O meu governo terá como base a meritocracia".
Estou chegando aos sessenta anos, mas ainda acho que tenho muito a aprender e quero continuar estudando e trabalhando até o fim dos meus dias. 
O governo da meritocracia transformou a aposentadoria em grande tolice, na medida que os jovens morrem de violência e drogas e os guerreiros envelhecem e são obrigados a manter-se fortes e seguir trabalhando até a morte. Mesmo porque: "alguém tem que trabalhar nessa casa".
Até hoje não entendi o que seria "meritório".
Desde muito pequena tive que trabalhar muito para ganhar alguns trocados que mal dava para comprar um calmante. Fui pobre e descobri que tinha que dar duro para melhorar a minha vida. Nos meus tempos, pedir esmolas era coisa para dementes.
Tenho observado muitas pessoas que usam a placa de "sou pobre" como um título que sente muito orgulho para adquirir privilégios sem produzir nada. O pobre de carteirinha que usa isso de forma arrogante e  fixa o olhar  aos reles mortais, indagando: "Trabalhar para quê?!
Eu conheci uma garota de vinte e poucos anos que trabalhava em uma empresa de prestação de serviço; ganhava um salário mínimo; bolsa escola para sua filha que vivia com a avó; bolsa família; e até uma casa de graça com direito aos móveis sem qualquer custos onde abrigava seus companheiros de drogas e tatuagens.
Depois assisti uma reportagem em que uma senhora ria dizendo que era tanto cartão benefício que ela não conseguia usar tudo e sempre sobrava saldo para o mês seguinte.
Talvez a palavra "meritório" tenha algum sentido diferente. Não sei.
Mas o mais intrigante é o fato de, nestes mesmos últimos anos, a classe média ter sido massacrada e os pobres e miseráveis ainda existirem e até aumentarem. Será que é melhor ser pobre e refém deste conceito de "meritório"?
Francamente, será que um dia compreenderei melhor essa Meritocracia à Dilma?!

 
Ester Farias de Oliveira
Enviado por Ester Farias de Oliveira em 03/08/2016
Alterado em 05/05/2017
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